sexta-feira, 22 de abril de 2011

Gustave Flaubert


Em tudo há o inexplorado, porque estamos acostumados a usar os olhos apenas como a lembrança daquilo que outros pensaram antes de nós sobre o que estamos contemplando. A mínima coisa contém uma ponta de desconhecido.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sándor Márai


Mas tem que ser assim: só podemos compreender o essencial partindo dos detalhes, esta é a experiência que tirei tanto dos livros como da vida. É preciso conhecer todos os detalhes, porque nunca se pode saber qual será importante depois, e que palavras esclarecerão alguma coisa.

James Wood

Em 28 de março de 1941, Virgínia Woolf encheu os bolsos de pedras e entrou no rio Ouse. O marido, Leonard Woolf, era obsessivamente meticuloso, e manteve na vida adulta um diário no qual registrava todos os dias as refeições e a quilometragem do carro. Aparentemente não houve nenhuma diferença no dia em que sua mulher se suicidou: ele registrou a quilometragem do carro. Mas, diz a biógrafa Victoria Glendinning, a página dessa data está borrada, com "uma mancha amarela pardacenta que foi esfregada ou enxugada. Podia ser chá, café ou lágrimas. É o único borrão em todos os anos de um diário impecável".

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Isaiah Berlin

O sentido de realidade

Pode-se dizer que toda pessoa e toda era tenham dois níveis: uma superfície pública, iluminada, facilmente observada e claramente descritível, a partir da qual semelhanças podem ser proveitosamente abstraídas e condensadas em leis; e, abaixo desta, um caminho levando a características cada vez menos óbvias, ainda que mais e mais íntimas e difusas, demasiado proximamente misturadas a sentimentos e atividades para deles serem facilmente distinguíveis. Com muita paciência, indústria e assiduidade, podemos cavar abaixo da superfície - e romancistas o fazem melhor do que "cientístas sociais" treinados -, mas a consistência é a de uma substância viscosa: não encontramos quaisquer camadas pedregosas ou obstáculos insuperáveis, mas cada etapa é mais difícil, cada esforço para avançar nos rouba o desejo ou a capacidade de continuar. Tolstoi, Shakespeare, Dostoiévski, Kafka, Nietzsche,  penetraram mais profundamente do que John Buchan ou H.G. Wells, ou Bertrand Russell; mas o que sabemos sobre este nível de hábitos semi-articulados, presunções e modos de pensar não examinados, de reações semi-instintivas, modelos de vida tão profundamente embutidos que absolutamente não se fazem sentir conscientemente - o que sabemos sobre isto é tão pouco, e provavelmente permanecerá tão negligenciável, pois não dispomos de tempo, de sutileza e de penetração, que afirmar nossa capacidade de construir generazilações onde, no melhor dos casos, tudo o que podemos é nos entregar à arte de pintar finos retratos; afirmar a possibilidade de alguma chave científica infalível onde cada entidade única exige uma vida de observação minuciosa e dedicada, de simpatia e insight, é umas das afirmações mais grotescas jamais feita pelos seres humanos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Rainer Maria Rilke


Certamente é preciso ir tão longe na imparcialidade, até o ponto de negar também a interpretação às vagas lembranças de sentimentos, às tradições de preferências e preconceitos herdados, a fim de dirigir a força, a admiração e a vontade, de maneira anônima e nova, para as próprias tarefas. É preciso ser um pobre, até a décima geração. E, também com relação àqueles que vieram antes, deve haver a possibilidade de ser um pobre, senão só se alcança o ponto desde onde eles subiram, sua primeira glória. Mas é preciso, para além deles, sentir as raízes e a própria terra. É preciso que se possa, a cada momento, pôr a mão na terra como o primeiro homem.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Czeslaw Milosz

Esperança

Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tato, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.

Entrar lá não se pode, Mas ele existe com rigor.
Se melhor ollhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas aparenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar de costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Honoré de Balzac


Outro estudo de mulher

Num dia bonito o senhor passeia por Paris. São mais de duas horas mas as cinco ainda não soaram. O senhor vê caminhando em sua direção uma mulher, o primeiro olhar lançado sobre ela é como o prefácio de um belo livro, ele lhe faz pressentir um mundo de coisas elegantes e finas. Como o botânico a atravessar os montes e vales arborizados, em meio às vulgaridades parisienses o senhor encontra por fim uma flor rara. Ou essa mulher está acompanhada por dois homens muito distintos, dos quais um pelo menos é condecorado, ou algum criado sem libré a segue a dez passos de distância. Ela não veste cores berrantes, nem meias que chamem a atenção, nem a fivela do seu cinto é muito trabalhada, nem tem calças de barras bordadas agitando-se em volta dos tornozelos. O senhor nota seus pés com botinas rendilhadas em seda que recobrem meias de algodão de uma finura extrema ou então meias de seda de cor cinzenta, ou ainda elas calçam borzeguins da mais requintada simplicidade. Um tecido deveras bonito e de preço medíocre chama sua atenção para o vestido, cujo modelo surpreende a mais de uma burguesa: é quase sempre um casaco três-quartos apertado por fitas e delicadamente bordado com uma presilha ou fio imperceptível. A desconhecida tem uma maneira toda sua de se enrolar num xale ou numa mantilha; ela sabe como prendê-los dos quadris ao pescoço, desenhado uma espécie de carapaça que transformaria uma burguesa numa tartaruga, mas sob a qual ela sugere as mais belas formas, ao escondê-las. De que maneira? Esse segredo guarda sem estar protegida por nenhuma patente de invenção. Entrega-se enquanto caminha a um certo movimento concêntrico e harmonioso que faz ondular sob o tecido sua forma suave ou perigosa, como a cobra ao meio-dia sob a gaze verde de sua erva fremente. Deve ela a um anjo ou a um demônio essa ondulação graciosa que se desenrola sob a longa capa de seda negra que agita a renda dos bordos disseminando no ar um bálsamo a que eu chamaria com satisfação de brisa da parisiense? O senhor reconhecerá nos braços, no busto, ao redor do pescoço, uma ciência das pregas que domina com arte o mais rebelde tecido de modo a lhe recordar a Mnemósine antiga. Ah, como ela domina, permita-me essa expressão, "o ritmo da caminhada!". Examine bem essa maneira de avançar o pé, moldando o vestido com uma precisão tão decente que desperta nos passantes uma admiração  mesclada de desejo, mas restringida por um profundo respeito. Quando uma inglesa tenta andar de tal modo, tem o ar de um granadeiro que avança para tomar uma fortificação. À mulher de Paris conceda-se o dom da caminhada. Por isso mesmo a munincipalidade lhe devia o asfalto das calçadas. Para passar, espera com sua orgulhosa modéstia  que lhe abram passagem. A distinção particular das mulheres bem-educadas se trai sobretudo na maneira como ela mantém o xale ou a mantilha cruzados sobre o peito. Possui enquanto caminha, um arzinho digno e sereno, como as madonas de Rafael em seus quadros.  Sua atitude, ao mesmo tempo tranquila e desdenhosa, obriga até o mais insolente dos dândis a lhe dar passagem. O chapéu, de uma simplicidade notável, possui fitas novas. Talvez tenha flores, mas os dos mais hábeis dessas mulheres têm apenas laços. A pluma exige a carruagem, as flores atraem mais o olhar. Sob essa cobertura vê-se a figura fresca e repousada  de uma mulher segura de si, sem fatuidade, que nada vê e tudo vê, cuja vaidade embotada por uma contínua satisfação expande sobre a sua fisionomia uma indiferença que desperta a curiosidade. Ela sabe que a estudam, sabe que quase todos, incluindo as mulheres, voltam-se para vê-la passar. Desse modo atravessa Paris como um fio da Virgem, branca e pura.