Os conceitos e definições envolvidos nas disciplinas formais que têm regras relativamente claras - a física, a matemática, a gramática, ou a linguagem da diplomacia internacional - são comparativamente fáceis de investigar. Já com os conceitos envolvidos em atividades menos articuladas - nas atividades do músico, no escrever romances ou poesia, em pintura, formas de composição, no trato cotidiano dos seres humanos e no "senso comum" do mundo - as coisas se tornam, por razões óbvias, muito mais difíceis. É possível construir ciência sobre a presunção de certas invariedades relativas; nós presumimos que o comportamento das pedras ou da grama, ou das plantas ou borboletas, não terá em eras remotas, sido diferente a ponto de refutar as hipóteses de que hoje fazem a química ou a geologia, a física, a botânica ou a zoologia. A menos que acreditemos que os seres humanos sejam suficientemente semelhantes em certos aspectos básicos e suscetíveis de abstração ao longo de intervalos suficientemente extensos de tempo, não teríamos base para confiar nas generalizações que, conscientemente ou não, entram não só nas ciências proclamadas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia, mas na história e na biologia e na arte do romancista, bem como na teoria política e em todas as formas de observação social.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Isaiah Berlin
O sentido de realidade
Fichas ou diagramas médicos não são equivalentes ao retrato que um romancista talentoso ou um ser humano dotado de insight - compreensão - adequada pode formar; e não o são, em absoluto, porque necessitem de menos habilidade ou sejam menos valiosas para seus próprios propósitos, mas porque, ao confinarem-se aos fatos e generalizações publicamente registráveis por elas atestados, devem necessariamente deixar de lado uma vasta quantidade de pequenas cores, aromas e sons evanescentes em constante alteração, e os equivalentes psíquicos destes, as minúcias do comportamento, pensamento e sentimento meio observadas, meio inferidas, a um só tempo demasiado numerosas, demasiado complexas, demasiado delicadas e demasiado indiscrimináveis umas das outras para serem identificadas, nomeadas, ordenadas, registradas e enunciadas numa linguagem científica neutra. E mais do que isto, há entre estas minúcias certas qualidades padrão - e do que mais podemos chamá-las? -, hábitos de pensamento e emoção, modos de olhar, de reagir, de falar sobre experiências, próximos demais de nós para serem discriminados e classificados - dos quais não temos estritamente consciência como tal, mas que, entretanto, absorvemos em nossa visão do que está acontecendo, e quanto mais sensível e agudamente conscientes estivermos estivermos deles, mais compreensão e insight dir-se-á justamente que possuímos.
Em grande parte, é nisso que consiste compreender os seres humanos. Tentar analisar e descrever claramente o que acontece quando assim compreendemos é impossível, não porque o processo de algum modo "transcenda", ou esteja "além" da experiência normal, ou seja algum ato especial de adivinhação mágica não descritível na linguagem da experiência comum; mas pela razão oposta, de que entra intimamente demais demais em nossas experiências mais normais, e é uma espécie de integração automática de um grande número de dados, demasiado fugidios e vários para serem enquadrados na moldura de algum processo científico, um após o outro, num sentido óbvio demais, indiscutível demais para ser enumerável.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Isaiah Berlin
O sentido de realidade
Pode-se dizer que toda pessoa e toda era tenham dois níveis: uma superfície pública, iluminada, facilmente observada e claramente descritível, a partir da qual semelhanças podem ser proveitosamente abstraídas e condensadas em leis; e, abaixo desta, um caminho levando a características cada vez menos óbvias, ainda que mais e mais íntimas e difusas, demasiado proximamente misturadas a sentimentos e atividades para deles serem facilmente distinguíveis. Com muita paciência, indústria e assiduidade, podemos cavar abaixo da superfície - e romancistas o fazem melhor do que "cientístas sociais" treinados -, mas a consistência é a de uma substância viscosa: não encontramos quaisquer camadas pedregosas ou obstáculos insuperáveis, mas cada etapa é mais difícil, cada esforço para avançar nos rouba o desejo ou a capacidade de continuar. Tolstoi, Shakespeare, Dostoiévski, Kafka, Nietzsche, penetraram mais profundamente do que John Buchan ou H.G. Wells, ou Bertrand Russell; mas o que sabemos sobre este nível de hábitos semi-articulados, presunções e modos de pensar não examinados, de reações semi-instintivas, modelos de vida tão profundamente embutidos que absolutamente não se fazem sentir conscientemente - o que sabemos sobre isto é tão pouco, e provavelmente permanecerá tão negligenciável, pois não dispomos de tempo, de sutileza e de penetração, que afirmar nossa capacidade de construir generazilações onde, no melhor dos casos, tudo o que podemos é nos entregar à arte de pintar finos retratos; afirmar a possibilidade de alguma chave científica infalível onde cada entidade única exige uma vida de observação minuciosa e dedicada, de simpatia e insight, é umas das afirmações mais grotescas jamais feita pelos seres humanos.
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